terça-feira, 7 de julho de 2009

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Maria Filomena Mónica: "Em última análise, faço sempre o que quero"
por Ana Sá Lopes, Publicado em 07 de Julho de 2009
Maria Filomena Mónica diz que com a idade está a perder a raiva, porque a raiva cansa muito. Mas continua a fazer e a dizer tudo o que lhe apetece



A socióloga odiada pelos queirosianos acabou de publicar uma nova versão da biografia de Eça, oito anos depois da primeira edição. Maria Filomena Mónica, a mulher do "Bilhete de Identidade", recebe o i na casa de onde quase nunca sai - tirando às segundas-feiras para ir à farmácia e ao supermercado - um rés-do--chão na Lapa, em Lisboa, com vista para um jardim extraordinário, infelizmente propriedade do vizinho de cima. Diz que agora vê com mais nitidez os defeitos de Eça de Queirós: era instrumental com os amigos. É implacável, embora diga que isso faz parte da sua pose. Culpabiliza-se com facilidade, mas em última análise só faz o que lhe apetece.

O Eça não era um santo, mas no princípio apaixonou-se completamente?
Apaixonei-me primeiro pelos romances, depois pelo jornalista e depois pelo homem. E não é bom fazer-se uma biografia em fase de êxtase completo. Para além da parte artística, fui desde logo muito sensível à lucidez e à inteligência do homem. Passados oito anos, já consegui distanciar-me mais, ver quais eram os defeitos. O principal está no domínio dos afectos. Era muito instrumental, só gostava de quem precisava, em última análise não gostava de ninguém. Em relação às mulheres, o facto de ele ter fugido à Anna Conover, que foi a maior paixão da vida dele, demonstra que não tinha confiança em si. Não era capaz de enfrentar uma relação com uma mulher emancipada. Fugiu a sete pés.

Era um machista?
Não era machista, nem mesmo misógino. A ortodoxia é que diz que o Eça era machista e misógino. Nos romances, ele retratava as mulheres como seres inferiores. Acontece que, sociologicamente, as mulheres eram seres inferiores, não tinham educação. Ele dá um retrato da sociedade. Muito me espantaria que aparecessem nos romances dele Luísas ou Marias Eduardas que fossem capazes de citar o Shakespeare de cor, ou o Camões, ou o Sá de Miranda. Porque é que ele não era machista? Quando ficou noivo da Emília de Resende, que era uma aristocrata do Norte, ela pergunta-lhe se pode escrever a um rapaz chamado Sandeman, daquela família inglesa do Porto. E ele responde-lhe que pode escrever a quem lhe apetecer. Até ficou escandalizado com a pergunta! Se fosse o Ramalho, ou a maior parte dos amigos dele, imagino que diriam às noivas "não, não podes" ou "ainda bem que me perguntas, vou-te dar autorização". Na relação com a noiva não era nada machista.

Diz que o Eça usava os amigos de forma instrumental. Usava Ramalho?
O Ramalho tratava-lhe das edições, das provas. "Já reviste? Vê lá o que é que fazes!" O Ramalho e o Antero achavam que "O Crime do Padre Amaro" era imoral. E é imoral, para a época é um livro muito forte. Se pensarmos que a publicação de "Madame Bovary" foi proibida, Portugal era tão liberal para a altura que deixou publicar "O Crime do Padre Amaro"! O Ramalho sempre tratou de problemas práticos. O mais amigo era o Jaime Batalha Reis, com quem o Eça viveu uma temporada. Batalha Reis manteve--se sempre muito amigo, muito fiel. Faz--me pena que o Eça se tenha portado mal no concurso para a carreira diplomática. A ideia de concorrer tinha sido do Batalha Reis, mas o Eça aproveitou a ideia, meteu uma cunha antes do Jaime Batalha Reis e não lhe disse nada. Ele ficou meio amuado e com razão. Mas mantiveram-se amigos.

E aquela outra miséria, quando Eça exige ser pago para não publicar um texto?
É chantagem! Achei a ideia genial. Claro que era moralmente abjecta. Imaginem eu agora ir dizer ao Eng. Sócrates: "Tenho aqui um romance sobre a sua vida mas se me der 30 mil contos abandono a ideia e não publico." Claro que isto não se faz. Ele foi dizer ao Ramalho, mais uma vez instrumental: "Fala aí com Andrade Corvo - que era o ministro dos Negócios Estrangeiros -, tenho esta ideia, Portugal vai ser invadido pela Espanha, mas se ele não quiser, dá-me o dinheiro que eu ganharia com o livro e não publico ?A Batalha do Caia?. O Ramalho disse--lhe: "Não estás bom da cabeça." É uma ideia moralmente abjecta, mas muito engraçada.

Tem tido uma guerra com os queirosianos. Porquê?
Eles começaram a fazer-me guerra.

Mas guerra como?
Tem a ver com as carreiras, luta-se por um poder muito pequenino. Os queirosianos vivem do Eça, é como se fossem sanguessugas. O Eça é a razão de ser da carreira e da promoção deles. Tenho a sorte de não pertencer a uma faculdade de letras. Fiz Filosofia, saltei para Sociologia, e agora faço história e de vez em quando escrevo biografias. Não preciso do Eça para subir na carreira. Para começar, já estava no topo, a liberdade era total. Comecei a perceber quando fui a uma conferência nos Estados Unidos, no centenário do Eça em 2000. Havia 40 portugueses que não tomavam o pequeno-almoço comigo, que não se sentavam ao meu lado no autocarro, que não me falavam. Achei aquilo estranho. Mas quem é esta gente? Depois, havia um professor da Faculdade de Letras, o António Feijó, que me disse: "Mas ainda não percebeste? Estás-lhes a roubar o território" Aquilo é território murado, é o território deles. E o professor americano depois explicou-me que quando me convidou por causa da biografia do Eça teve imediatamente cartas de alguns queirosianos a dizer que o Instituto Camões não me devia pagar o avião. Isto disse- -me o americano, que respondeu que se o Instituto Camões não pagasse, a universidade americana pagaria. Não sabia nada disto quando fui, só quando cheguei aos Estados Unidos é que verifiquei que era uma persona non grata.

Mas quem são esses queirosianos?
Basicamente, é o Carlos Reis. É catedrático de Coimbra e agora é reitor da Universidade Aberta. E é autor do mais ridículo programa de Português que eu li em dias da vida. As criancinhas entre o 1.o ano e o 9.o ano vão ter de ser sujeitas a um programa de Português que é uma aberração total e completa. Os outros são assistentes dele. Como ele é catedrático, os outros têm medo de falar comigo, porque se na América os vissem a tomar o pequeno-almoço comigo, depois não iam a professor auxiliar.

O Eça é autobiográfico? Conta na biografia uma cena num baile de máscaras, que se passou com o Eça quando andava com uma mulher casada que é exactamente igual a uma cena de João da Ega em "Os Maias"?
Ele aproveita muito o real, é um observador espantoso, mas não é um escritor confessional. Não é como eu, que uso a palavra "eu" em cada duas frases. Ele, de resto, diz "eu não tenho biografia, sou como a república de Andorra, não tenho passado". Teria ficado furioso se tivesse lido a minha biografia. Não queria que falassem da sua vida, queria que falassem da sua obra. Mas era um poseur. Metade das cartas dele não podem ser entendidas à letra. Quando escreve ao Oliveira Martins a dizer que "Os Maias" é um romance falhado, o que quer é pedir uma recensão crítica. Essa cena das máscaras e muitas das cenas de "Os Maias" são coisas a que assistiu. Já se dava naquela altura com a grande sociedade portuguesa.

O Eça é o João da Ega?
O Ega é o Eça se não tivesse saído de Portugal. Se tivesse cá ficado, tinha-se transformado num geniozinho engraçado, mau, sarcástico, parecido com o Ega e um falhado. Ele teve um pressentimento de que isso iria acontecer. O Ega é o bobo da corte que o Eça teria sido se cá ficasse. O Eça tinha horror a esse Portugal ignorante, beato e pobre. Isso é um sentimento que me é familiar, uma pessoa sentir-se aqui enclausurada.

Ainda sente essa claustrofobia?
Muito menos. Em parte pela idade. Estou cansada de ter raiva, a raiva exige energias. Cansa imenso! Depois, porque deixei de ver televisão. Só vejo DVD e os primeiros 10 minutos do telejornal para ver se aconteceu alguma coisa. Disse na entrevista à Alexandra Lencastre que só saio à segunda-feira. E é verdade! À segunda-feira vou à farmácia e ao supermercado, terça, quarta, quinta, sexta e sábado estou em casa, no domingo estou com os netos.

Não sai para tomar café?
Não tomo café, sou hipertensa. Para o bem ou para o mal vejo pouco os meus amigos, tenho dois ou três, também os vejo só para aí três vezes por ano. Isso faz-me um bocadinho pena, ver pouco os meus amigos. Tenho alguns amigos estrangeiros e aí o email abriu-me o mundo. Retomei agora uma amizade com um amigo israelita?

... que foi seu namorado?
Sim, mas namorado só durante uma semana! (risos) É bom quando se resolvem essas coisas da carne logo ao início e depois fica-se amigo!

No "Bilhete de Identidade" fala muito do atrofiamento nacional, da educação claustrofóbica?
No meu caso, era exagerado pelas particularidades da minha mãe, que tinha sido alta dirigente da Acção Católica com o pelouro da juventude. Depois de ter andado a dizer em artigos de jornal como é que se deviam educar os filhos e sair--lhe esta na rifa, azar o dela! Mas nós até temos coisas muito parecidas. Era muito trabalhadora, muito obsessiva como eu sou. Entre mim e a minha irmã não há nada mais diferente. Nós somos quatro, todos eles deixaram de me falar. Eu para zangas estou por aí? [risos]

Não voltaram a falar-se?
Os três deixaram de me falar e não foram ao lançamento. A Isabel, no Natal quando a minha mãe estava a morrer, disse--me: "Não sou capaz de estar zangada contigo!" E trouxe-me um livro todo corrigido por ela à mão. "Agora fazes uma segunda edição com todas as emendas!" Era outro livro! Só uma ingénua poderia imaginar que eu iria introduzir aquelas emendas! Os outros dois mantiveram-se zangados.

O problema era a questão da sua mãe?
A questão da minha mãe, a questão de eu expor o ter cometido adultério, embora o meu marido cometesse adultério todos os dias e mais algum. Eu nem sou promíscua, até sou muito monogâmica! Tive três maridos, mas quando sou casada sou muito fiel. Mas acho que foi o facto de a minha mãe ter puxado ao máximo para nos casarmos nas famílias de topo e eu ter dito isso. O facto de o meu bisavô ter sido lavrador não é nenhum pecado, até funciona a nosso favor, quer dizer que subimos na vida. Mas para eles é mau. As únicas pessoas que eu teria tido um enorme desgosto se tivessem ficado zangadas ou tristes eram os meus filhos, especialmente o meu filho. E não ficaram.

Nunca mais voltou a falar com Vasco Pulido Valente?
Não. Como ele também não sai de casa?

Mas ele ficou mesmo magoado?
Acho que ele não tem razão! Um dia vamos ter de falar sobre isso, espero que sim. Não quero falar mais sobre o Vasco, já dei lenha de mais para essa fogueira. Eu almoçava com o Vasco todas as quartas-feiras. E almocei com ele na véspera do lançamento. Ele sabia há cinco anos que eu estava a escrever as memórias. Não pediu para ler, nem eu as deixaria ler. Mas não é uma pessoa que de repente soube que ia haver um livro. Se houve alguém de cuja reacção eu tive medo foi do meu primeiro marido, e dos meus filhos, como já disse.

Ele reagiu bem?
Reagiu lindamente. A minha percepção é estranhíssima. Achei, curiosamente, que dava uma imagem do Vasco como eu o vejo? Eu adoro o Vasco! Falo dele com uma enorme ternura, foi uma pessoa importantíssima na minha vida, por quem eu tenho a maior das admirações! Até achava que o meu actual marido é que ia ter ciúmes do Vasco!

O António Barreto não queria que falasse dele no livro?
Não o conhecia! O livro termina em 1976, não conhecia o António. Uma das razões por que não escrevo o segundo volume nem é tanto por causa do António Barreto. Em última análise, faço sempre o que quero. Nem a minha mãe me proibiu, nem há marido que me proíba. Se quiser mesmo uma coisa, e achar que a devo fazer, faço. Mas não faço porque de todas as autobiografias que li as interessantes são as do período formativo.

A ideia que temos de si é que é uma mulher absolutamente segura...
[Silêncio]. Fiz uma pose, como o Eça. Fiz uma pose arrogante, segura, forte e implacável, mas não sou nada disso. Carências afectivas, é à menor oportunidade. "Ninguém gosta de mim, no fundo", "eu devia estar a fazer outra coisa que não estou a fazer." Isto é a culpabilidade. Se a minha filha me pede, como aconteceu no sábado passado, para ficar com os miúdos e eu não posso, acho que sou a pior avó do mundo e a pior mãe do mundo. É muito fácil explorar-me! Sei que sou assim, que sob esta aparência sou um vaso chinês com uma falha sísmica. Nunca fui a um psiquiatra porque sou capaz de falar disto, porque isso me ajuda, falar com os amigos.

Costuma ridicularizar a psiquiatria?
Acho que não vale a pena. O que a psiquiatria fez às pessoas que conheço foi tirar-lhes o sentimento de culpa. Acho que as pessoas devem ter sentimentos de culpa quando se portam mal! Alguém que não toma conta de uma mãe doente? Tive a minha mãe doente durante 11 anos e, mesmo com a má relação que tinha com ela, achei que era meu dever tratar dela até ao fim! Nos últimos oito anos, deixou de me reconhecer. Eu era a mais velha, a minha irmã Isabel tinha o marido doente com um cancro, os outros dois eram miúdos - miúdos para mim, nessa altura tinham 40 anos. Achava que tudo dependia de mim. Mas cada vez que ia para Oxford trabalhar ia com uma culpabilidade que nem lhe conto nem lhe digo e arranjei problemas físicos relativamente graves. Isto para dizer que não sou tão forte quanto pareço.

Ainda é de esquerda?
Sou. Se tivesse tido outra educação, provavelmente era de direita. Como fui criada na direita, continuo a pensar que a direita portuguesa é totalmente subserviente em relação ao poder político, completamente inculta, não cosmopolita, e socialmente a maior parte das pessoas da direita nunca foram para além de Elvas. O fundamental para mim é a liberdade e a direita portuguesa não preza a liberdade. Pode perguntar-se: e a esquerda preza? Provavelmente, a esquerda é inculta, nunca foi para além de Elvas, tem os mesmos traços mais ou menos?

Não há nenhuma questão ideológica?
É uma questão de eu ter sido muito marcada pelo salazarismo e pela Igreja Católica. O facto de ser ateia liga-me mais à esquerda. Sou a favor do aborto e da eutanásia. Já fiz testamento vital há cerca de seis anos e quero que seja respeitado. Já o dei aos meus filhos e ao António. Não quero que me prolonguem a vida. Isso também me afasta da direita. Nunca fui de esquerda por acreditar no maoísmo ou na ditadura do proletariado. Achava que os valores do liberalismo clássico eram de esquerda e o Salazar era um homem da direita. Vivi até aos 31 anos sob uma ditadura, para mim a liberdade é um valor de esquerda.

E vota no PS?
Sempre votei PS, até em 1975. Chorei que nem uma Madalena porque achava que o Soares era um burguês nojento. Apesar de tudo, tinha medo do PCP.

E agora vai votar em José Sócrates?
Não voto mais.

Quando deixou de votar?
Desde as últimas. Disse que nunca mais votava enquanto os dois principais partidos não fizeram a reforma eleitoral que prometeram. Sou contra a eleição por listas, não sei em quem estou a votar. Parte da mediocridade do que se passa no Parlamento deriva da impossibilidade de nós votarmos numa pessoa. Provavelmente, irei votar nas locais, para afastar o Santana Lopes.

Vai votar em António Costa?
Sim. Prefiro o António Costa ao Santana Lopes, embora o Santana Lopes me divirta muito mais. Mas ele só me diverte quando está fora do poder, no poder é um irresponsável.

E o que pensa de José Sócrates?
É um rapaz da província que subiu na vida à custa da esperteza e de muito pouco trabalho. Assinou projectos arquitectónicos que não eram dele?

Ele negou, assumiu a autoria?
Fiquei com a impressão de que tinha assinado projectos que não eram dele. Mentiu, recentemente, no negócio da PT. Tem um percurso de opacidade.

2 comentários:

didium disse...

Sim senhor! Interessante!
Li até ao fim...

Anónimo disse...

é esta q só sai à segunda para ir à farmacia e à quarta,para ir ao super???